Poeta: 1861 - 1898
Marise Soares Hansen
QUANDO TUDO ACONTECEU...
1861: Nasce João da Cruz, em Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis, capital do Estado de Santa Catarina), a 24 de Novembro. Filho de Guilherme da Cruz, mestre pedreiro, e Carolina Eva da Conceição, lavadeira, ambos negros e escravos, alforriados por seu senhor, o coronel Guilherme Xavier de Sousa. Do coronel, o menino João recebeu o último sobrenome e a proteção, tendo vivido em seu solar como filho de criação. - 1869: Aos oito anos, recita versos seus em homenagem a seu protetor, que voltava, promovido a marechal, da Guerra do Paraguai. - 1871: Matricula-se no Ateneu Provincial Catarinense, onde estudou até o fim de 1875, tendo aprendido francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais. Essa última disciplina fora-lhe ensinada pelo naturalista alemão Fritz Müller, amigo e colaborador de Darwin e Haeckel. Além das palavras do amigo Virgílio Várzea: “Distinguiu-se acima de todos os seus condiscípulos”, Cruz e Sousa mereceu elogios de Fritz Müller, para quem a inteligência do jovem negro era a prova de que suas opiniões anti-racistas estavam corretas. - 1881: Funda, com Virgílio Várzea e Santos Lostada, o jornal Colombo, no qual proclamavam adesão à Escola Nova (que era o Parnasianismo). Parte para uma viagem pelo Brasil, acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, na função de ponto. Realiza conferências abolicionistas em várias capitais. Lê Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro, Antero de Quental. - 1884: O presidente da província, Dr. Francisco Luís da Gama Rosa, nomeia Cruz e Sousa Promotor de Laguna. O poeta não pôde tomar posse do cargo, pois a nomeação fora impugnada pelos políticos locais. - 1885: Publica Tropos e Fantasias, em colaboração com Virgílio Várzea. Dirige o jornal ilustrado O Moleque, cujo título provocativo revela o caráter crítico e contundente das idéias veiculadas. Tal jornal era francamente discriminado pelos círculos sociais da província. - 1888: A convite do amigo Oscar Rosas, parte para o Rio de Janeiro. Durante os oito meses de permanência no Rio, conhece o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, que seria o grande amigo e divulgador de sua obra. Lê Edgar Allan Poe e Huysmans, entre outros. - 1889: Retorna a Desterro, por não ter conseguido colocação no Rio de Janeiro. Lê Flaubert, Maupassant, os Goncourt, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes. Inicia a conversão ao Simbolismo. - 1890: Vai definitivamente para o Rio de Janeiro, onde obtém emprego com a ajuda de Emiliano Perneta. Colabora nas revistas Ilustrada e Novidades. - 1891: Publica artigos-manifestos do Simbolismo, na Folha Popular e em O Tempo. Pertence ao grupo dos “Novos”, como eram chamados os “decadentes” ou simbolistas. - 1882: Vê pela primeira vez Gavita Rosa Gonçalves, também negra, em 18 de Setembro. Colabora em A Cidade do Rio, de José do Patrocínio. - 1893: Publica Missal (poemas em prosa) em Fevereiro, e Broquéis (poemas), em Agosto. Dia 09 de Novembro, casa-se com Gavita. É nomeado praticante e, posteriormente, arquivista da Central do Brasil. - 1894: Nasce Raul, seu primeiro filho, a 22 de Fevereiro. - 1895: recebe a visita do poeta Alphonsus de Guimaraens, que viera de Minas Gerais especialmente para conhecê-lo. A 22 de Fevereiro, nasce seu filho Guilherme. - 1896: Em março, sua esposa Gavita apresenta sinais de loucura. O distúrbio mental durou seis meses. - 1987: Evocações (poemas em prosa, que seriam publicados postumamente) encontra-se pronto para o prelo. Nasce Rinaldo, seu terceiro filho, a 24 de Julho. Ano de sérias dificuldades financeiras e de comprometimento da saúde. - 1898: Morre a 19 de Março, em Sítio (Estado de Minas Gerais), para onde partira três dias antes, na tentativa de recuperar-se de uma crise de tuberculose. Tinha 37 anos. Seu corpo chega ao Rio de Janeiro num vagão destinado ao transporte de cavalos. José do Patrocínio encarrega-se dos funerais. O enterro realiza-se no Cemitério de S. Francisco Xavier, tendo o amigo fiel, Nestor Vítor, discursado ao túmulo. Publicação de Evocações. Nasce-lhe o filho póstumo, João da Cruz e Sousa Júnior, dia 30 de Agosto, que morreria em 1915, aos 17 anos. (Seus outros três filhos morreriam antes de 1901, ano em que morreu sua esposa Gavita). Em 1900, dá-se a publicação de Faróis, coletânea organizada por Nestor Vítor.
PORQUE TODO O POETA (COMO TODO CANTO) É NEGRO
Qual é a cor da minha forma, do meu sentir? – pergunta Cruz e Sousa. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
Rio de Janeiro: numa confeitaria elegante, nos anos de 1890, um grupo de escritores saúda, em voz alta, o jovem que se encontra à porta:
- Entra, ó Cruz e Sousa! Entra, ó grande poeta!
A ênfase dada à saudação explica-se por se tratar de um jovem negro, que corre o risco de ser ofendido, ou até escorraçado da confeitaria. A escravidão já fora abolida oficialmente, mas contra o preconceito não houve decreto, não houve lei...
João da Cruz e Sousa ouve a saudação dos amigos, até entende sua intenção de evitar-lhe uma situação constrangedora, mas fita-os com olhos tristes, como se pensasse: “Canalhas!” Tanto mais que, próximo ao grupo dos amigos e fiéis admiradores, encontra-se um rosto estranho, que o observa com olhar curioso, o que chega a ser irritante... Quem é esse homem desconhecido, que perscruta o poeta? Seria mais um dos seus contendores, provocadores, mais alguém prestes a repudiá-lo abertamente nos jornais?
Toda sua vida fora, até então, permeada por essa mesma sensação de discriminação, de rebaixamento. Até o modo afetivo como alguns de seus “seguidores” a ele se referem – o Poeta Negro – parece um estigma. Ninguém diz “poeta branco”. No Brasil escravocrata, “poeta” e “negro” são elementos que não se casam, indicam uma verdadeira aberração... Mas a dor de ser discriminado pode não ser muito diferente da grande Dor de ser homem.
Qual é a cor da minha forma, do meu sentir? Qual é a cor da tempestade de dilacerações que me abala? Qual a dos meus sonhos e gritos? Qual a dos meus desejos e febre?
Uma revolta amargurada o paralisa e, por algum (quanto?) tempo, suas atenções se deslocam do exterior, da confeitaria, do constrangimento, das amarras sociais, para o interior, sua alma, presa num cárcere severo. Às vezes é preciso invocar o ódio para suportar a dor:
Ò meu ódio, meu ódio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo,
Unge-me a fronte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.
(...)
O poeta lembra-se de que sempre precisara de um escudo. Podia ser o Ódio. Podia ser a crença em si mesmo, na própria sensibilidade superior. Podia ser a Dor. O desdém pelos chamados “detentores” do poder e do saber, o desprezo pelos ditadores de regras. Podia ser a Arte, esse escudo, esse Broquel: esses Broquéis.
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