sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O POETA E A CHUVA ( Crônica)

(Adyr Pacheco)

...E o dia amanhece em chuvas. O sol escondido sobre as nuvens, não percebe o bom dia da tristeza que me recebe em cálido abraço.

O pensamento viaja por entre as janelas, a saudade apresenta-se às lembranças do passado; dos tantos amigos que partiram e que por certo não encontraremos jamais; da infância inocente que há muito ficou para trás.

...E o tempo passou, não percebemos, apenas passou. Desenganos, ilusões, vitórias, alegrias e tristezas juntam-se na multiplicidade deste momento. A lembrança do amigo bem sucedido; do amigo hoje envelhecido, transitando entre as misérias da vida; dos parentes e conhecidos que em óbito nos deixaram.

Saudade!... saudade, dos lugares que passamos, Sul, Norte, Nordeste, companheiros que nos solitários dias para trás deixamos. Saudade das tantas pessoas que cruzaram nossas esquinas, com suas estórias, suas histórias e muitas memórias, compartilhando o tempo, precário momento do encontro.

A chuva continua soberana e, na altivez do seu domínio, brinca com a alma do poeta.

Saudade, tristeza e a vida incerta, presente na luta diária. E o coração não se entrega e se integra no poema da vida, na melodia sentida no prelúdio do inverno; no canto da esperança.

O tempo passou, o homem se transformou, envelheceu e, na maturidade de sua consciência, percebe a vida pulsando no sublime encontro das memórias. E o poeta que era ontem amadureceu. Hoje grita em seus versos que sofreu, sorriu, chorou, mas acima de tudo, ante a musa, chuva teimosa que airosa domina este momento, agradece o permanente reencontro com a inspiração. O poeta sonha, não esmoreceu e ainda não morreu.

O verdadeiro poeta não morre, apenas recolhe-se em contemplação. Transforma-se em uma nova estrela, para que o seu brilho possa alimentar a inspiração de outros tantos anônimos poetas, escritores, seresteiros, artistas, sonhadores, amantes da noite e da natureza...

Como herança, deixa o coração fragmentado na figura de seus versos, presente carinhoso aos amantes da vida com poesia, para ser cantada em prosa e versos no brilho eloqüente de uma sublime melodia...

(Florianópolis  17/09/2002     -  12:25)

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