ARTISTA: O DESOLADO ALQUIMISTA DA DOR
Dor e revolta, Cruz e Sousa desajustado. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
Hoje, os poemas que Cruz e Sousa traz para mostrar aos companheiros são diferentes: ainda o branco, mas também o vermelho e negro. Ainda o transcendentalismo, mas também muita dor e revolta. Talvez eles estejam no volume Faróis; ou então, nos Últimos Sonetos. E, pairando sobre seus textos, a imagem do poeta como um desajustado, um inadaptado em relação à sociedade:
Desde que o Artista é um isolado, um esporádico, não adaptado ao meio, mas em completa, lógica e inevitável revolta contra ele, num conflito perpétuo entre sua natureza complexa e a natureza oposta do meio, a sensação, a emoção que experimenta é de ordem tal que foge a todas as classificações e casuísticas, a todas as argumentações que, parecendo as mais puras e as mais exaustivas do assunto, são, no entanto, sempre deficientes e falsas. Ele é o supercivilizado dos sentidos (...).
(“Emparedado”)
(Daí vem que Cruz e Sousa seja duas vezes maldito, no sentido de ser marginalizado e discriminado: pela raça e pela poesia. Daí que tenha tido que suportar críticas e sátiras por parte de quem analisou sua obra protegido pelo preconceito racial e literário. E daí que não tenha passado nem perto da Academia Brasileira de Letras, então recém-fundada, em 1896.)
A rejeição nos meios literários e na imprensa alimenta sua mágoa, que alimenta seu verso. A mágoa se destila, vira matéria-prima da poesia. A experiência concreta articula-se com a retórica, ou seja, o cotidiano ingrato converte-se na tópica decadentista do poeta maldito:
Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco.
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
(“O Assinalado”)
“Poucas vezes terá havido tamanha identidade entre uma tópica de natureza universal e um traço da condição individual. Retórica e existência fundiram-se perfeitamente nessa união, constituindo-se num caso singular na poesia brasileira. Essa fusão de categorias diferentes produziu um discurso em que o fingimento poético se disfarça com perfeição na sinceridade emocional, transmitindo ao leitor a impressão de autenticidade expressiva.” (Ivan Teixeira)
Cruz e Sousa sabe que atingiu a maturidade artística plena, consciente: a capacidade de transformar o sofrimento em Arte; de abandonar o puro confessionalismo, a auto-piedade romântica. A dor é sublimada e, pela Arte, transforma-se em Redenção.
Ainda à porta da confeitaria, o poeta até agora não se lembrou de Gavita. Caso contrário, já teria ido embora. Quantas vezes não faltara ao encontro dos “Novos” para estar mais tempo ao lado dela!
MUSA NEGRA
Cruz e Sousa canta a mulher negra. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
A vida dera-lhe Gavita, a mulher, a negra, a mãe de seus filhos. Chega o tempo da musa real, as musas alvas, “tudescas”, sidéreas, inatingíveis, já são passado; como aquela “Alda”, “Alva, do alvor das límpidas geleiras”, ou a dona daqueles “Braços” leitosos:
Braços nervosos, brancas opulências,
Brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
Alvuras castas, virginais alvuras,
Lactescências das raras lactescências.
Gavita é o canto à mulher negra, ao colo real, em que o poeta repousa de seus dissabores. Agora, o espiritual não elimina o carnal:
Amar essa Núbia – vê-la entre véus translúcidos e florentes grinaldas, Noiva hesitante, ansiosa, trêmula, tê-la nos braços como num tálamo puro, por entre epitalâmios; sentir-lhe a chama dos beijos, boca contra boca, nervosamente – certo que é, para um sentimento d’Arte, amar espiritualmente e carnalmente amar.
Beleza prodigiosa de olhos como pérolas negras refulgindo no tenebroso cetim do rosto fino; lábios mádidos, tintos a sulferino; dentes de esmalte claro; busto delicado, airoso, talhado em relevo de bronze florentino, a Núbia lembra, esquisita e rara, esse lindo âmbar negro, azeviche da Islândia.
(“Núbia”)
No entanto, uma vez mais o carnal não se justifica por si só, ele se funde ao prazer estético. No fim e no fundo de tudo, a Arte, com quem o poeta se casara desde sempre:
No entanto, amar essa carne deliciosa de Núbia, ansiar por possuí-la, não constitui jamais sensação exótica, excentricidade, fetichismo, aspiração de um ideal abstruso e triste, gozo efêmero, afinal, de naturezas amorfas e doentias.
Senti-la como um desejo que domina e arrasta, querê-la no afeto, para fecundá-lo e flori-lo, como uma semente d’ouro germinando em terreno fértil, é querer possuí-la para a Arte, tê-la como uma página viva, veemente, da paixão humana, vibrando e cantando o amor impulsivo e franco, natural, espontâneo, como a obra d’arte deve vibrar e cantar espontaneamente.
BALADA DE LOUCOS
Demência de Gavita, a companheira de Cruz e Sousa... Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
Mas a vida dera-lhe também a loucura de Gavita. A companheira dócil aliena-se em rezas e ladainhas incompreensíveis, bárbaras... E foi como se os dois enlouquecessem; foi como se ambos morressem, estando vivos: “A pouco e pouco – dois exilados personagens do Nada – parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo. Como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...”. Enfim, ela volta do universo da demência, que se parecia com a Morte:
Alma! Que tu não chores e não gemas, Teu amor voltou agora.
Ei-lo que chega das mansões extremas,
Lá onde a loucura mora! Veio mesmo mais belo e estranho, acaso,
Desses lívidos países,
Mágica flor a rebentar de um vaso
Com prodigiosas raízes.
Veio transfigurada e mais formosa
Essa ingênua natureza,
Mais ágil, mais delgada, mais nervosa,
Das essências da Beleza.(...)
(Ressureição)
"ABRE-ME OS BRAÇOS, SOLIDÃO PROFUNDA"
Já se faz tarde, alguns dos intelectuais seus amigos fazem menção de se levantar para sair. O poeta, no limiar entre o fora e o dentro de si, o fora e o dentro da confeitaria, sente um impulso para entrar. É novamente saudado, recebe o sempre terno e sincero abraço de Nestor Vítor. É este quem lhe apresenta o desconhecido que há pouco apontava para Cruz e Souza.
- Cruz, quero que conheça o poeta Alphonsus de Guimarães, que acaba de chegar de Minas Gerais especialmente para vê-lo.
Entre lisonjeado e envergonhado, Cruz e Sousa emudece. Tem sempre atitude reservada e desconfiada diante de quem não conhece. Gosta da homenagem, mas a presença do poeta mineiro adia uma necessidade urgente: o pedido de dinheiro a Nestor Vítor. Os 250 mil réis mensais recebidos da Central do Brasil, onde é arquivista, já não chegam para o aluguel, o sustento dos filhos, e, agora, para o tratamento de sua saúde, que, ele sabia, não ia bem. Nesse encontro, apenas Nestor Vítor reparou na opacidade do olhar do poeta, no tom muito baixo de sua voz, na perda de peso, na angústia decorrente da dependência de um cargo medíocre e burocrático, que, se o sustentava, também o obrigava a escrever até às altas horas da noite. Realizado, o poeta mineiro recolhe-se. Satisfez o seu desejo de conhecer o “Cisne Negro”, poderia voltar para Mariana e lá viver ainda muito tempo, escrevendo seus poemas romântico-simbolistas; o grupo se desfaz. Cruz e Sousa parte para casa, sem o dinheiro de que precisava.
Dali a algum tempo, naquela mesma confeitaria, Cruz não teria nada a pedir a ninguém, nem dinheiro. Apenas entregaria a Nestor Vítor a trilogia de sonetos “Pacto das Almas”, em que professa a crença no encontro com o amigo em outra dimensão, e um volume inédito de poemas em prosa, Evocações. Era uma despedida. Um sinal do agravamento de sua tuberculose, doença que lhe causou enorme sofrimento, e enorme comoção por parte da intelectualidade brasileira. Para quê tanta mobilização em torno da situação precária de um poeta extraordinário, agora que sua doença não tem mais cura? E os donativos, as contribuições, as manifestações de apoio não seriam nem metade da atenção dada à sua obra após a sua morte. Ali, com os originais de Evocações nas mãos, prestes a serem entregues ao amigo, o poeta nem suspeita – ou tem como certa? – a glória que seu nome alcançaria.
Era mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na Solidão. Que não me negassem a necessidade fatal, imperiosa, ingênita, de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na força impetuosa indomável da Vontade.
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Bibliografia:
BASTIDE, Roger. “Quatro Estudos sobre Cruz e Sousa”. Fortuna Crítica. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979.
LEMINSKI, Paulo. “Cruz e Sousa – o Negro Branco”. Vida. Porto Alegre, Sulina, 1990.
MAGALHÃES JR., Raimundo de. Poesia e vida de Cruz e Sousa. São Paulo, Edit. Das Américas, 1961.
MURICI, Andrade. “Atualidade de Cruz e Sousa”. Introdução à Obra Completa de Cruz e Sousa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995.
MUZART, Zahidé Lupinacci. “Cruz e Sousa e a crítica”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.
RUFINONI, Simone Rossinetti. “O Satã Negro”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.
TEIXEIRA, Ivan. “Metafísica e exílio”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998.

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