domingo, 10 de janeiro de 2010

O CANÁRIO E A ÁGUIA (Fábula)

                        (Adyr Pacheco)
















Em uma bela manhã de primavera, o sol sorridente abraçava-se ao mundo, exalava alegria, transpirando o suave perfume da natureza, transformando as faces cansadas, extraindo ares de esperança.

Encontramos nesta atmosfera, sobre os galhos de uma frondosa árvore, o canário e a águia trocando impressões sobre a vida e o mundo.

Dizia o canário.

- Não sabes o quão grato me sinto, por ter-me a natureza, agraciado com tanta beleza. Veja a suavidade de minhas penas, sua coloração amarela, e perceba que outras linhagens possuímos diversificando nossa beleza e coloração, sublimando-nos aos olhos da humanidade e por toda a criação.

- Sabes? Quando eu canto ofertando minhas melodias, vejo a alma do homem embevecida a escutar-me transcendendo o paraíso.

- Percebes a importância de minha contribuição, para o encanto da natureza, embelezando suas manhãs ensolaradas de primavera?

- Sentiste a magia de meu canto, a irradiar-se, transformando-se em salutar energia vitalizando a alma cansada, triste e perturbada da humanidade?

-Minha cara águia, olhando tudo isto, sinto pena de ti. Enorme, bico grande, com estes dedos de unhas afiadas e feias, causando medo a todos que te encontram pelos caminhos, horrorizando e transmitindo medo às crianças e aos seres mais frágeis da natureza.

A águia que tudo ouvia sem nada contestar, por sua vez, após escutar as impressões do canário, toma da palavra discorrendo suas observações.

-Meu nobre e belo amigo canário. Entendo a tua posição, mas vejo que minha importância para o homem talvez seja muito mais acentuada que a sua.


-Sou grande é bem verdade e pareço feia, mas minha beleza não sendo física, transcende a condição do corpo que é transitório e mutável.

- Veja meu caro. Sinta a minha importância! Por voar acima das nuvens, dotou-me a natureza de visão profundamente aguçada, permitindo-me de lá, das grandes altitudes, perceber meu alimento num pequeno arbusto, em que, num gesto rápido e ágil, consigo capturar minha presa. Com isto, ensino aos homens o poder da determinação, visualizando seus objetivos na visão firme e segura do alvo determinado.

-Meu caro amigo canário, acompanhe as minhas observações. Veja que meus ninhos, eu os faço nos picos das mais altas montanhas, mostrando ao homem a importância da segurança, no fortalecimento de seus vôos para os sonhos “intransponíveis”, ensinando-o, que só dele depende transpor o limite das alturas ambicionadas. Mostrando acima de tudo, que é  a partir do tamanho de seu sonho, que se constrói possibilidades, superando os limites que o aprisionam  a seu espaço, pois é da sua atitude que define-se o resultado de sua altitude a alcançar.

Assim discorriam suas impressões, o canário e a águia. Procuravam cada qual colocar-se em estágio de importância maior que outro.

Em dado momento, resolvem então, para dirimir as dúvidas, consultar um sábio que habitava em uma das cavernas nas montanhas. Lá chegando, colocaram ao sábio as impressões e observações de cada um, concernente às suas importâncias junto a natureza.

O sábio que pacientemente escutara a ambos, refletia sobre cada palavra ali pronunciada, aguardando o momento correto de dar a resposta ansiada pelos consulentes egocêntricos.

Afoito, perguntou então o canário.

-Então meu caro sábio, que tendes a nos dizer? Quem é mais importante para a natureza, eu ou a águia?

- Meu caro amigo, nem um , nem outro tendes maior importância para a natureza.

-Mas como? Depois de tudo que aqui relatei tendes ainda alguma dúvida? Um de nós, é, logicamente o mais importante. Se não sou eu, será fatalmente esta feiosa águia. O que seria, aqui entre nós – um tremendo desastre para os olhos do mundo.

Disse assim o canário, sentindo-se menosprezado em sua vaidade e ferido seu orgulho .

-Caros amigos! Disse o sábio. A natureza em sua sabedoria infinita, deu igual importância a todos os seres, para que assim, pudesse manter o equilíbrio e a harmonia do universo privilegiando toda a humanidade.

-Veja meu amigo canário. Ela deu-te a beleza física com penas aveludadas e um canto maravilhoso para enterneceres o coração da humanidade nos momentos de tristeza e solidão. É bem verdade, teu canto inspira poesia e beleza exalando um magnetismo de sublimada magia, proporcionando leveza ao trabalho árduo da natureza, afrouxando e adoçando o coração endurecido de muitos homens.  Mas deixou à águia, a força da determinação, a visão aguçada e a coragem para enfrentar as alturas, mostrando ao homem um caminho seguro para o norte de seus sonhos.

- Cada qual em seu papel, constrói a infinita beleza de Deus na criação, ensinando e construindo, sendo todos partícipes do jardim do universo em igual quilate e importância.

Satisfeitos com a orientação do sábio, a águia e o canário seguiram seus caminhos, conscientes de suas responsabilidades e importância diante do progresso da humanidade e a harmonia do universo infinito.

(Florianópolis  21/11/03  - 12:00)

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