quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

CRUZ E SOUZA (PARTE - III)




Marise Soares Hansen

CONTRA AS NORMAS ESTÉREIS, AS FORMAS ETÉREIS


Cruz e Sousa evoca sua chegada ao Rio de Janeiro, quando experimentara o mesmo mal-estar: tudo era novo e hostil. Quanta ilusão pensar que a capital do país, como uma cidade mais intelectualizada, mais moderna que Desterro, iria reconhecer-lhe o talento. Na primeira vinda ao Rio de Janeiro, bem que tentara estabelecer-se. Foram oito meses de portas fechadas, de dificuldades. Pelo menos, conhecera Nestor Vítor, seu grande amigo, o fiel divulgador de sua obra (quem, diz a lenda – e disso o poeta nem desconfia – iria acender-lhe velas diante do retrato, após sua morte). Pelo menos, há cada vez mais a poesia, há Charles Baudelaire, há Edgar Allan Poe: seus refúgios.

Lá, dentro da confeitaria, Oscar Rosas continua dando ouvidos ao desconhecido. Cruz e Sousa fixa os olhos no amigo; graças a ele e a outros, como Emiliano Perneta, conseguira estabelecer-se definitivamente no Rio de Janeiro, onde a moda literária é então o Parnasianismo. A poesia oficial, reconhecida pela intelectualidade, pela imprensa, pelos escritores já consagrados, é aquela produzida pela tríade formada por Olavo Bilac, Raimundo Corrêa e Alberto de Oliveira. Uma poesia cujo “realismo” volta-se para a objetividade pictórica de sabor neoclássico, que prima pelo culto à forma. Cruz e Sousa foi o seu tanto parnasiano, esteta da “Arte pela Arte”:

Como eu vibro este verso, esgrimo e torço,
Tu, Artista sereno, esgrime e torce:
Emprega apenas um pequeno esforço
Mas sem que a Estrofe a pura idéia force.

Tantas contendas com o grupo dos Parnasianos, mas quem pode negar a semelhança entre esses versos e os de “Profissão de Fé”, o hino parnasiano, de autoria Olavo Bilac? Mas, à preocupação com a forma, tão tipicamente parnasiana:

Assim terás o culto pela Forma,
Culto que prende os belos gregos da Arte
E levarás no teu ginete, a norma
Dessa transformação, por toda a parte.

vem somar-se uma musicalidade estranha:

Enche de estranhas vibrações sonoras
A tua Estrofe, majestosamente...
Põe nela todo o incêndio das auroras
Para torná-la emocional e ardente.

e uma sensorialidade inusitada, sinestésica, contrária à impassibilidade parnasiana:

Derrama luz e cânticos e poemas
No verso e torna-o musical e doce
Como se o coração, nessas supremas
Estrofes, puro e diluído fosse.
(...)
("Arte")




Diluir é o passo para sublimar, para ascender, ou transcender: “Para atingir o mundo das Essências, é preciso primeiramente destruir o mundo concreto, é preciso, partindo do Parnaso, que é a apologia das formas duras, sólidas de linhas bem talhadas, e da indestrutibilidade, mármore, metal , marfim, ultrapassá-lo, para misturar as linhas, mergulhar relevos, extinguir os contornos.” (Roger Bastide)




“ARTISTA! PODES LÁ ISSO SER SE TU ÉS D’ ÁFRICA, TÓRRIDA E BÁRBARA?”

O Parnasianismo é oficial e Cruz e Sousa sente que sua poesia é marginal. Menos descritiva, mais sugestiva; menos racional, mais sensorial; menos pictórica, mais musical; menos referencial e mais indireta, ou seja, mais simbólica: com ela surge entre nós o Simbolismo.

Herdeiro de Blake, Poe e do decadentismo de Baudelaire, o Simbolismo é ofuscado pelo beletrismo parnasiano. Entretanto, o poeta segue seu credo. Os modismos não o atraem, as concessões o irritam, a bajulação o enoja. Daí uma postura independente, aparentemente orgulhosa, que tanto provoca os inimigos. E lega ao poeta um lugar parecido com aquele celebrado por Charles Baudelaire como o do Poeta amaldiçoado.

Não só na temática do poeta maldito e na teoria das correspondências encontram-se as influências de Baudelaire, mas também no culto de um gênero literário novo: o poema em prosa.

- Charles, meu belo Charles voluptuoso e melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento aquário de spleen, profeta muçulmano do tédio, ó Baudelaire desolado, nostálgico e delicado!
(“No inferno”)

Cruz e Sousa já não tem mais esperança de que o desconhecido da confeitaria seja um editor. Caso contrário, já teria vindo até ele, entusiasmado, com a alguma proposta a fazer-lhe. Pelo visto, a sorte de encontrar quem publicasse seus livros ocorrera uma única vez, graças à iniciativa de Domingos de Magalhães que, ousadamente, publicara dois livros seus:

Fevereiro de 1893: os poemas em prosa de Missal. Incompreendidos. Criticados. Execrados. Árdua é a sina de ter de aturar juízos míopes, como o do ilustre e respeitadíssimo crítico José Veríssimo:

“[Missal] é um amontoado de palavras, que dir-se-iam tiradas ao acaso, como papelinhos de sorte, e colocadas umas após outras na ordem em que vão saindo, com raro desdém da língua, da gramática e superabundante uso de maiúsculas. Uma ingênua presunção, nenhum pudor em elogiar-se, e, sobretudo, nenhuma compreensão, ou sequer intuição do movimento artístico que pretende seguir, completam a impressão que deixa este livro em que as palavras servem para não dizer nada.”

(José Veríssimo não imagina que anteviu, na poética de Cruz e Sousa, o que Tristan Tzara proporia como “Receita para se fazer um poema dadaísta”, em 1920... E pensar que esse mesmo crítico, após a morte de Cruz e Sousa, faria sua retratação, dizendo ser a poesia do Dante Negro “o ponto culminante da lírica brasileira em quatrocentos anos de existência.”)

Agosto de 1893, Broquéis. Apesar de bastante parnasiano, sob alguns aspectos, inaugura no Brasil uma nova linguagem poética, marcada pela rarefação do referente e pela musicalidade sugestiva. Teve sorte um pouco melhor, recebeu algumas linhas elogiosas por parte da imprensa. Quase todos reconheceram a musicalidade inovadora dos versos de Broquéis. O que não quer dizer que as portas da cúpula literária abriram-se para o poeta. José Veríssimo (de novo!) viu como principal característica dos poemas de Broquéis a “falta de emoção real” (!!!) E surgem outras vozes, como a de Artur de Azevedo, também de formação positivista, naturalista e parnasiana, que até apreciaram o ritmo ..., mas não podiam entender os versos do poeta negro: o que tal imagem significa? Qual a lógica de tais e tais idéias? O que quer dizer “sonho branco de quermesse”?, pergunta Artur de Azevedo? Sem atinar para o fato de que o ilogismo poderia ser a chave para o encontro da verdadeira Arte, os críticos chegam a uma conclusão: Cruz e Sousa é um poeta de poucas idéias.


ARTISTA: O SUPERCIVILIZADO DOS SENTIDOS

Cruz e Sousa publica Broquéis (poemas). Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Todas essas críticas, recentes, encontram ainda ressonância na sensibilidade do poeta. Talvez isso explique seu receio de finalmente entrar na confeitaria e cumprimentar seus amigos. É Domingo, e naquele lugar reúne-se não só o grupo dos “Novos”, mas também o dos escritores consagrados: Bilac, Coelho Neto (sobre quem recaem as suspeitas do poeta a respeito da autoria de um soneto hediondo, que satiriza seu estilo); às vezes, até MACHADO DE ASSIS. Por outro lado, ali estavam aqueles cuja alma era receptiva às suas inovações poéticas, aqueles que, mesmo sem “entender” sua poesia, sentiam-na como a bruma envolvente e redentora. Aqueles que lhe elogiaram até mesmo o poema “Antífona”, abertura do livro Broquéis: mais que profissão de fé do Simbolismo, “Antífona” revelou a Arte Poética do “Dante Negro”. É a celebração do inefável, do imponderável, como resultado alquímico da mistura de cores, sons, cheiros, sensações, sentimentos. O substrato da poesia é o mesmo da alma: mistério. O que não elimina a plena consciência estética. O rigor apolíneo - com pulsação dionisíaca. O Branco e suas metáforas. O negro que idealiza o Branco: sublima sua condição? Ou o Branco como materialização da diafanidade suprema e reveladora? A magia de “Antífona” ultrapassa qualquer entendimento:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De Luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...


Formas do Amor, constelarmente puras,
De virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolência de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos , radiantes...


Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
(...)

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