quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

CRUZ E SOUZA (PARTE - II)


«ÓDIO SÃO, ÓDIO BOM! SÊ MEU ESCUDO!»


Pergunta Cruz e Sousa: é de Cristo o sangue vertido, ou do escravo na senzala? Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

O homem estranho, no interior da confeitaria, continua a fitá-lo. Agora, sussurra alguma coisa ao ouvido de Oscar Rosas. A sensação incômoda de Cruz e Sousa cresce, mais uma vez ele sente que precisa de um escudo.

Seria possível que o escudo existisse desde Nossa Senhora do Desterro, desde os idos de 1861, ano de seu nascimento? Seu nome deveu-se então ao santo do dia, São João da Cruz, místico e visionário. Como também mística, metafísica e transcendental seria sua poesia; como o poeta estaria sob o signo da cruz.

De outros Gólgotas mais amargos subindo a montanha imensa, - vulto sombrio tetro, extra-humano! – a face escorrendo sangue, a boca escorrendo sangue, o flanco escorrendo sangue, os pés escorrendo sangue, sangue, sangue, sangue, caminhando para tão longe, para muito longe, ao rumo infinito das regiões melancólicas da Desilusão e da Saudade, transfiguradamente iluminado pelo sol augural dos Destinos!...

A imagem da tortura é bíblica ou real, empírica? É de Cristo o sangue vertido, ou do escravo na senzala? Ou se trata de uma metáfora da condição do poeta, que sofre por ser “maldito” entre os malditos? Ele se recorda da mãe, que fora escrava:

Em fundo de tristeza e de agonia
O teu perfil passa-me noite e dia

Aflito, aflito, amargamente aflito,
Gesto estranho que parece um grito.
(...)
Mas, de repente, eis que te reconheço,
Sinto da tua vida o amargo preço.


Eis que te reconheço, escravizada,
Divina Mãe, na Dor acorrentada.


Que reconheço a tua boca presa
Pela mordaça de uma sede acesa.

Presa, fechada pela atroz mordaça
Dos fundo desesperos da Desgraça.
(...)
(“Pandemonium”)

E pensar que uma parte da crítica futura o acusaria de ficar alheio às causas abolicionistas, trancafiado na “Torre de Marfim” do hermetismo simbolista, por puro desconhecimento de textos inéditos, verdadeiros gritos de denúncia e de repúdio às injustiças sociais. Poemas em que a revolta chega a sufocar o transcendentalismo, através de distorções que bem poderiam ser chamadas de expressionistas. Como este (“Escravocratas”), em que o senhor de escravos é o animal rastejante, o animal que merece ser torturado:

Oh! Trânsfugas do bem que sob o manto régio
Manhosos agachados – bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum cágado tranqüilo.
(...)
Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d´estrépito, gongórico,
Castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!)



FAZ-SE UM POETA SINGULAR

O homem desconhecido, agora, não apenas sussurra ao ouvido de Oscar Rosas, como também aponta para o poeta. A face de Cruz e Sousa ilumina-se: poderia ser um editor, interessado em publicar novos livros seus! Poderia ser a Sorte, que lhe sorrira na infância, para nunca mais se dar a ver...

Infância... tempos felizes, até. Realmente, foi sorte que o negrinho, diferentemente do que ocorria com os outros de sua raça, vendidos tão logo crescessem o suficiente, recebesse o carinho paternal de seus donos, um casal sem filhos: D. Clarinda, que o iniciou nas letras; o Marechal Xavier de Sousa que, ao morrer, legou a seus ex-escravos algum dinheiro, suficiente para o sustento do menino vivo e inteligente. Outras recordações de Desterro vêm-lhe à mente: a instrução sofisticada; o contato direto com um dos grandes nomes das ciências naturais, Haeckel; o conhecimento de idiomas: a educação típica da elite branca. Que, longe de fazer do poeta um conformado, iria fornecer-lhe o substrato para uma postura crítica, uma cultura universalizante, uma arte revolucionária.
Chega a idade adulta e, com ela, os problemas. O negrinho esperto já não é visto como espetáculo engraçadinho, pitoresco. É já um jovem inconformado, consciente de que é preciso transformar. Uma nação que sustenta a monarquia e a escravidão não é digna de ser chamada civilizada, diziam os republicanos e abolicionistas, dissera CASTRO ALVES, diz Cruz e Souza:

Vai-se acentuando,
Senhores da justiça – heróis da humanidade,
O verbo tricolor da confraternidade...
E quando, em breve, quando

Raiar o grande dia
Dos largos arrebóis – batendo o preconceito...
O dia da razão, da luz e do direito
- Solene trilogia -

Quando a escravatura
Surgir da negra treva - em ondas singulares
De luz serena e pura;

Quando um poder novo
Nas almas derramar os místicos luares,
Então seremos povo!
(“Dilema”)

Bem que soubera aproveitar algumas chances oferecidas pelo destino. Como a decisão que tomou de seguir uma companhia de teatro em suas apresentações pelo Brasil. Tinha que partir, ainda que fosse no obscuro cargo de ponto, pois a vida “real” começava a sufocar. Posteriormente, sua obra não faria quase nenhuma referência ao teatro. Alguns falariam em aversão à arte dramática... talvez um trauma, depois da dissolução da Companhia, que fizera o poeta voltar à terra natal, à mesquinhez, à ignorância? O soneto “Acrobata da Dor” vale-se de imagens teatrais:

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionados
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! Retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.


O SABER DE ALTOS SABERES

Que remédio? Estando de volta a Desterro, é preciso provocar a ordem, a política e os costumes vigentes na província, abalar a literatura local. Para tanto, o poeta dirige os jornais Colombo e Tribuna Popular. Depois, O Moleque. Quem é esse, o moleque negro, metido a intelectual, poeta e, ainda por cima, a dândi, com suas roupas bem cortadas? Quem, o atrevido? Indicado para a promotoria pública? Impossível!!! Ele evoca a sensação de saber-se capaz, até superior, às vezes, e ser impedido, barrado, excluído, impugnado: é a experiência de “sentir todas as forças contra si, sabendo-se idealmente superior”. (Ivan Teixeira).

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.


Ninguém te viu o sofrimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!
(“Vida obscura”)

Uma vez mais, a imagem da prisão, reiterada tantas vezes: aqui, são os braços presos na cruz. Em seu testamento literário, o poema em prosa “Emparedado”, o poeta aprisionado em muros sociais implacáveis. Num de seus últimos sonetos, a alma encontra-se presa no cárcere do corpo. E agora, aquela figura estranha prende o poeta com sua curiosidade, provocando-lhe um mal-estar desconcertante.

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