(Adyr Pacheco)
Um dia destes ao passar pela praça da alfândega, deparei-me com a figura de um mendigo e seu cão.
Parecia-me que a cada lambida do cão, as dores amenizavam-se trazendo-lhe uma sensação de bem estar e frescor.
Era aquela cena, uma imagem diferenciada do todo, traduzindo reações inusitadas de nojo por alguns transeuntes e total indiferença por outros.
Por ali, permaneci por algum tempo, analisando a cena um tanto bizarra do cão que lambia o seu dono e, por ele, também era abraçado em uma troca de afeto e carinho como grandes e verdadeiros amigos. Era a interação da amizade de homem e cão.
Logicamente aquela cena chamou-me à reflexão. Ante a necessidade dos verdadeiros exemplos, que carecemos em nossa sociedade que não se cansa de fazer apologia às hipocrisias, embrenhando-se pelos caminhos das falsas “verdades”.
E aquela massa passava cabisbaixa, com pressa, envolvida com suas dificuldades e necessidades, que na complexidade dos mares da vida em virtude das ondas de interesses vários navegavam. Alguns rostos sofridos, outros indiferentes e eu ali presenciando toda aquela gente.
O mendigo e o cão percebi - eram exemplos.
A amizade que os ligavam era real, fazendo inveja a todos que com um mínimo de atenção aquele quadro presenciassem.
Carecemos mais que nunca do exemplo da amizade demonstrada pelo mendigo e seu cão.
Não podemos chamar a sociedade de cachorra, porque certamente estaremos ofendendo os pobres cães que se oferecem em amizade transparente, sem hipocrisias, interesses e sem máscaras.
Nossa sociedade infelizmente carece profundamente de amizades leais e verdadeiras, como as proporcionadas pela humilde dupla estirada naquele chão da alfândega.
Oh! Deus, quando será que o homem deixará de se conduzir pelos instintos ainda animais e sua forma inconsciente de ser irracional? Quando meu Deus, a consciência haverá de se desabrochar em sua forma hominal para que se apresente o ser verdadeiramente racional?
Mais repugnante que o cão lambendo o seu dono, é a hipocrisia estampada na face de cada um de nós que nos apresentamos com caras de “bons moços”. No tapinha nas costas com um “meu querido”, estampando um falso carinho. No sorriso irônico de superioridade traduzindo palavras bem pensadas em colocações mentirosas e bem conduzidas.
Mendigo e cão eram exemplos, sim, é bem verdade, em um mundo de contradiçôes e falta de lealdade.
Infelizmente a máscara dos homens, não lhe permite abrir as portas e as janelas da casa de sua alma para a verdadeira amizade, lançando-o na solidão das desconfianças ou nos labirintos das mentiras e traições.
Para nossa tristeza, percebemos então que a força dos interesses imediatistas, (e somente eles importam) situam-se como fatores claramente dominantes, sendo a tônica dos relacionamentos desses pobres seres chamados “humanos” – infelizes almas indecentes.
Mendigo e cão, (exemplos a esses homens nojentos, que vivem sedentos do sangue de seus irmãos) transcendiam nesta tela, a um mundo divino, na beleza cristalina da visão de um Michelangelo, Da Vinci ou Aleijadinho.
O homem, refratário das leis da natureza, terá com certeza o seu horto nas lágrimas da desilusão, sentindo a falta de amizade na solidão das cavernas, entrincheirado nas sombras do desprezo, pedindo a morte por compaixão.
(Florianópolis 11/11/03 - 10:15)


simplesmente magnifico o texto....
ResponderExcluirinfelizmente vivemos neste mundo cheio de hipocresia e falta de amor ao proximo.
onde realmente eh mais facil termos um
cao amigo a um amigo.
Hoje, com o INSS ele consegue uma aposentadoria igual a de todo mundo que trabalhou, menos o 13 salario. Eh nescessario orienta-lo, e ele ainda podera morar onde gosta, na rua, livre como um passaro e ainda com seu amigo. Muita gente rica não tem um amigo sequer, inclusive companhas em seus beneficios.
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